Devocional de Efésios 4:32 — O Perdão Não Começa em Você
Devocional de Efésios 4:32. Perdoar faz bem a quem perdoa, mas não é esse o motivo que Paulo dá. O texto aponta para outro lugar — e para outra medida.
“Perdoar é um presente que você dá a si mesmo.” A frase circula em legenda de rede social, em consultório e em púlpito.
E ela tem razão no que afirma. A mágoa guardada adoece mesmo: tira o sono, encurta a conversa, contamina relações que nada tinham a ver com a ofensa.
O problema é que ela responde a uma pergunta diferente da que a Bíblia responde. Ela explica o benefício do perdão. Paulo explica a origem dele.
“Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.” Efésios 4:32
A frase começa com “antes”
Essa palavra é uma dobradiça. Ela liga o versículo a outro, imediatamente anterior, que quase nunca aparece junto:
“Toda a amargura, e ira, e cólera, e gritaria, e blasfêmia e toda a malícia sejam tiradas dentre vós” (Efésios 4:31).
Primeiro Paulo manda tirar. Depois manda pôr. São dois movimentos da mesma ordem, e o segundo não funciona sem o primeiro.
Vale reparar na lista do que sai: amargura, ira, cólera, gritaria, maledicência. Nada ali é escândalo público. São coisas de convivência — de igreja, de casa, de mesa de domingo.
O versículo 30 explica por que isso importa tanto
Um passo antes ainda, Paulo escreve algo desproporcional para quem acha que rancor é assunto pequeno:
“E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção” (Efésios 4:30).
A amargura entristece o Espírito Santo.1 E essa é a razão pela qual o mandamento aparece no meio de instruções sobre a boca, o trabalho e a raiva — a vida comum de uma comunidade.
E a raiz da atitude amargurada é específica: a incapacidade de perdoar.1 Não é temperamento. É uma conta em aberto.
“Benigno” é palavra de uso, não de sentimento
O termo grego traduzido por benignos (chrēstos) descreve o que é útil, prestável, que serve. É a palavra que se usaria para uma ferramenta boa.
As traduções modernas trazem “bondosos e compassivos”. As duas leituras se somam: bondade que se sente e bondade que se usa.
Isso tira o perdão do terreno da emoção. Ninguém precisa sentir vontade para ser útil a alguém. Precisa decidir.
A medida está no fim da frase
O versículo não termina em “perdoando-vos uns aos outros”. Termina em “como também Deus vos perdoou em Cristo”.
Aquele “como” é a régua. Ele responde às três perguntas que aparecem na hora de perdoar:
- Quanto? Tanto quanto fui perdoado;
- Até quando? Enquanto Deus me suportou — e Ele ainda suporta;
- E se a pessoa não merecer? Essa pergunta já foi respondida na cruz, onde eu também não merecia.
O perdão, portanto, não começa em nós. Começa num perdão recebido antes, que já custou o preço a quem o deu.
A frase da legenda promete alívio. Paulo promete algo maior e mais exigente: parecer-se com quem nos perdoou primeiro.
Senhor, faz de nós uns para com os outros aquilo que o Senhor foi conosco em Cristo — benignos onde queríamos ser duros, misericordiosos onde temos razão, e capazes de soltar a conta que ainda estamos cobrando.
Fique na paz!
Fontes
- As citações seguem a Almeida Corrigida Fiel (ACF).
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. II. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 55.
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