Devocional de Filipenses 4:6-7 — A Paz Que Monta Guarda
Devocional de Filipenses 4:6-7. Paulo escreveu sobre ansiedade no meio de uma briga de igreja — e a paz que ele promete guarda o coração antes de mudar a circunstância.
Quem já orou às onze da noite e acordou às três com o mesmo aperto no peito conhece um intervalo de que quase ninguém fala. É o tempo que passa entre a oração e a paz.
Paulo escreveu sobre esse intervalo. Escreveu preso, e escreveu para uma igreja que estava brigada.
“Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” Filipenses 4:6-7
A ordem nasceu no meio de uma briga de igreja
O assunto começa quatro versículos antes. Ali Paulo faz um pedido constrangedor, com nome e sobrenome: “Rogo a Evódia, e rogo a Síntique, que sintam o mesmo no Senhor” (Filipenses 4:2).
Duas mulheres da igreja estavam brigadas, e a contenda causava divisão entre os irmãos.1
Paulo estava preso, a semanas de distância. Ainda assim tratou do caso numa carta que seria lida em voz alta para a igreja inteira.
Ou seja: o “não estejais inquietos” foi escrito para uma igreja dividida, por um homem preso, que ainda considerava a possibilidade de ser executado.
E, entre a briga e a ordem, Paulo encaixa três palavras: “Perto está o Senhor” (Filipenses 4:5). São elas que seguram tudo o que vem depois.
O que a ordem NÃO está mandando você fazer
A palavra que Paulo usa descreve alguém atraído para direções diferentes.1 A esperança puxa para um lado, o medo para o outro. A tensão fica insuportável.
As traduções brasileiras percebem isso de ângulos diferentes: a Almeida Corrigida Fiel diz “não estejais inquietos”, a Revista e Atualizada diz “não andeis ansiosos”, e a Nova Almeida diz “não fiquem preocupados”.
Repare que nenhuma delas manda você sentir menos. Todas descrevem um coração puxado ao meio e apontam para onde ele deve ser levado.
Isso importa por um motivo prático. “Ansiedade”, em português, virou palavra de consultório, e não é raro alguém sair de um culto achando que tomar remédio é sinal de fé pequena. Não é o que está escrito aqui.
Paulo trata da divisão interior de quem carrega sozinho o que deveria entregar. O texto não substitui o cuidado de um médico. Orar por um osso quebrado nunca dispensou o gesso.
Orar, pensar, viver — e a maioria para no primeiro
O trecho costuma ser lido até o versículo 7 e fechado ali. Mas Paulo dá três instruções, não uma: orar corretamente, no versículo 6; pensar corretamente, no 8; e viver corretamente, no 9.1
- Orar não é só pedir. São três palavras em sequência: oração, súplica e ação de graças. As duas primeiras surgem naturalmente quando a dificuldade se apresenta; a terceira exige uma escolha — e é ela que faz a memória trabalhar a favor da fé;
- Pensar é o versículo que ninguém cita nesse assunto: “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro… nisso pensai” (Filipenses 4:8). Não adianta entregar a preocupação às onze da noite e passar a madrugada alimentando o pensamento que a produziu;
- Viver fecha o ciclo: “O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco” (Filipenses 4:9).
Entre o versículo 7 e o 9 existe uma diferença fina que vale a leitura. No 7, a paz de Deus guarda. No 9, o Deus da paz acompanha.1
Primeiro vem a sentinela. Depois, a companhia.
A paz monta guarda — ela não resolve a pendência
“Guardará” é palavra de quartel.
O mesmo verbo grego aparece em 2 Coríntios 11:32, quando o governador de Damasco pôs guarnição na cidade para prender Paulo. É o que uma tropa faz na muralha.
A guarnição não levanta o cerco. Impede que ele entre.
É por isso que Paulo pode dizer, poucos versículos adiante, que aprendeu a contentar-se (Filipenses 4:11). Aprendeu, com o tempo e no lugar errado. As prisões dele continuaram sendo assunto da guarda pretoriana (Filipenses 1:13) enquanto ele escrevia sobre paz.
A promessa deste texto é mais estranha, e mais útil, do que o fim do problema. O seu coração e os seus pensamentos ficam guardados enquanto o problema ainda está de pé.
Evódia e Síntique, até onde a Escritura nos conta, não se reconciliaram na mesma carta. Mas a igreja recebeu a ordem de orar, de pensar e de viver — no meio da briga, não depois dela.
Conosco funciona do mesmo jeito. A paz que Deus dá chega para montar guarda enquanto a vida ainda está bagunçada.
Que o Senhor guarde hoje o nosso coração e os nossos pensamentos, ainda com a conta aberta, ainda com a conversa por resolver.
Que Ele nos ensine a orar sem esconder o tamanho do medo, a agradecer antes de ver a resposta, e a não alimentar de madrugada aquilo que entregamos à noite.
E que, onde houver uma Evódia e uma Síntique entre nós, sejamos os primeiros a procurar a reconciliação.
Fique na paz!
Fontes
- As citações seguem a Almeida Corrigida Fiel (ACF).
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. II. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 124.
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